Aroma das especiarias - Joanne Harris , opinião

17:11 Raphy's 0 Comentários


Sinopse:
Vianne Rocher recebe uma estranha carta. A mão do destino parece estar a empurrá-la de volta a Lansquenet-sur-Tannes, a aldeia de Chocolate, onde decidira nunca mais voltar. Passaram já 8 anos mas as memórias da sua mágica chocolataria La Céleste Praline são ainda intensas.

A viver tranquilamente em Paris com o seu grande amor, Roux, e as duas filhas, Vianne quebra a promessa que fizera a si própria e decide visitar a aldeia no Sul de França. À primeira vista, tudo parece igual. As ruas de calçada, as pequenas lojas e casinhas pitorescas… Mas Vianne pressente que algo se agita por detrás daquela aparente serenidade. O ar está impregnado dos aromas exóticos das especiarias e do chá de menta.

Mulheres vestidas de negro passam fugazes nas vielas. Os ventos do Ramadão trouxeram consigo uma comunidade muçulmana e, com ela, a tão temida mudança. Mas é com a chegada de uma misteriosa mulher, velada e acompanhada pela filha, que as tensões no seio da pequena comunidade aumentam. E Vianne percebe que a sua estadia não vai ser tão curta quanto pensava. A sua magia é mais necessária do que nunca!
"-Olhem para mim, todos vós - disse Inès.- Olhem bem para a minha cara. É o rosto da crueldade, do fanatismo, e da injustiça. Estas coisas não são uma questão de religião, raça ou cor. Um crime cometido em nome de Alá não deixa de ser um crime. Acham que são melhores que Deus? Acham que podem enganá-lo com a vossa conversas sobre justiça?" - pg 462, Aroma das especiarias, Joanne Harris
(para quem não leu/quer ler o livro, contém spoilers)

Opinião:

Para começar, vou colocar aqui a carta que Armande Voizin escreveu a Vianne.
Querida Vianne,

Lembro-me do primeiro telefone a ser instalado em Lasquenet. Ena! Que alvoroço que causou. Toda a gente queria experimentá-lo. O bispo que o tinha em sua casa, foi inundado com presentes e subornos. Bem, se as pessoas pensavam que era um milagre, imagina o que pensariam que isto é. Eu, a falar contigo do mundo dos mortos. E, para o caso de estares a perguntar-te, sim, há chocolate no Paraíso. Diz a monsieur le Curé que o disse eu. Vê se ele já aprendeu a aceitar uma piada.

Oito anos. Muito pode acontecer, heim? As meninas pequenas começam a fazer - se crescidas. As estações mudam. As pessoas partem. O meu neto, com vinte e um anos! Uma boa idade, lembro - me disso. E tu, Vianne – partiste? Penso que sim. Ainda não estavas pronta para ficar. O que não quer dizer que não o faças algum dia – tem - se um gato dentro de casa e ele só quer voltar a ir lá para fora. Deixa - se lá fora e mia para voltar a entrar. As pessoas não são muito diferentes. Descobrirás isso se alguma vez voltares. E porque é que eu voltaria?, ouço - te perguntar. Bem, eu não digo que seja capaz de prever o futuro. Não exactamente, de qualquer forma. Mas em tempos fizeste um favor a Lansquenet, embora nem toda a gente o visse dessa forma na altura. Mesmo assim, os tempos mudam. Todos o sabemos. E uma coisa é certa; mais cedo ou mais tarde, Lansquenet precisará de novo de ti.

Mas não posso contar com o nosso cure para te avisar quando isso acontecer. Por conseguinte, faz - me um último favor. Volta a Lansquenet de visita. Leva as crianças. E Roux, se ainda estiver aí. Põe flores na campa de uma velha senhora. Não da loja do Narcisse, mas flores a sério, dos campos. Diz olá ao meu neto. Toma uma chávena de chocolate.

Oh, e mais uma coisa, Vianne. Havia um pessegueiro ao lado da minha casa. Se vieres no verão, os frutos devem estar maduros e prontos a ser colhidos. Dá alguns aos pequenitos. Detestava que ficassem todos para os pássaros. E lembra - te; tudo regressa. O rio acaba por trazer tudo de volta.
Com todo o meu afecto, como sempre,

Armand
Já há bastante tempo que não lia um livro tão depressa (3 dias), provavelmente porque os últimos livros que li eram de contos e, aquela necessidade de ler e saber o que vai acontecer a seguir é diferente. 

Este livro é último da série Chocolate (para quem comprou o livro Um gato, um chapéu e um pedaço de cordel, ele inclui a A história de Anouk que o considero como o último capítulo do livro, mas em vez de ser contado por Vianne Rocher ou Monsieur Le Curé, sendo contado por Anouk (que é uma personagem tão interessante como a mãe e acho que já era altura de haver um livro contado por ela). Se após a leitura de Sapatos de rebuçado(com uma vilã fantástica e uma Vianne esmorecida) fiquei um pouco relutante em relação à leitura deste livro, após o ler, não me arrependi nada de o ter feito, adorei!

Custa-me acreditar que esta série acabe aqui, sinto que aquelas personagens têm mais para dar, são tão interessantes e têm tantas coisas para se descobrir. A diferença entre este e os outro livros da série, é o fato de este abordar temas atuais e reais, enquanto que os outros são muito à base da magia.

Este livro, leva-nos de volta a Lansquenet, lugar onde Vianne jurava não voltar, até ao dia em que recebe uma carta de Armande Voizin pedindo ajuda. Antes de a carta chegar, já ela sentia os ventos da mudança e, decide pegar nas filhas e ir até Lansquenet, onde à primeira vista, tudo parece estar no mesmo.
Uma das questões abordadas no livro é choque de culturas entre uma comunidade de uma pequena aldeia no interior de França e o de uma comunidade islâmica, que se instalada na outra margem do rio, sendo que no início fora bem acolhida, mas que depois parece ser a causa do caos e tensões. No entanto, à medida que Vianne vai conhecendo a comunidade islâmica (recorrendo à sua magia, a pêssegos e chocolates), rapidamente percebe que elas são semelhantes, pessoas com as mesmas características. Vianne Rocher vai funcionar como um construir de pontes entre as duas culturas, procurando entender os problemas que existem entre elas e, de alguma forma, contribuindo para a sua resolução.

Uma das questões abordadas no livro é choque de culturas entre uma comunidade de uma pequena aldeia no interior de França e o de uma comunidade islâmica, que se instala na outra margem do rio.
A violência sobre as mulheres, é outra questão novamente abordada (já o tinha sido em Chocolate com Joséphine), desta vez com a Mulher de Preto.
O extremismo dentro da religião é um dos outros temas, onde pessoas jovens, bem parecidas, com estudos e aparentemente simpáticas, não são quem aparentam.
A chocolaterie outrora um espaço cheio de vida e cor, é agora um espaço enegrecido.

Neste livro é possível acompanhar a evolução das personagens de Chocolate, do Curé Reynaud, da Joséphine e até de Paul Muscat.

Joséphine é atualmente uma mulher cheia de força de vontade e confiante em si mesma, algo que só foi possível após se ter livrado do traste do marido e, de quem tem um filho.  Esse facto foi ocultado durante 4 anos é só com Vianne (que inicialmente pensa que o filho é de Roux) de volta a Lansquenet e aconselhada por ela a contar a verdade, o decide fazer, pois, tinha medo que o pai transmitisse os seus "adoráveis ensinamentos" ao filho.

Paul Muscat acaba por mudar após saber que ele é o pai do filho de Joséphine.

O Curé é sem dúvida aquela que mais me espantou, quem diria que era capaz evoluir de tal forma. Afinal em Chocolate, ele está obcecado com a purificação e o jejum, acabando no fim a lambuzar-se em chocolates.

A Mulher de Preto (Inès, que usa sempre um niqab preto, nunca sendo vista sem ele) é o ponto central da história e, uma personagem muitíssimo bem construída. Só por volta do meio do livro é que é começado a ser levantado o véu sob quem ela realmente é. É a principal acusada do caos dentro da comunidade muçulmana, mas na realidade, ela está lá com o intuito de os alertar para o facto de o seu filho, Karim não ser quem aparenta. Na comunidade todos julgam que ela é irmã dele, pois, é isso que ele espalha, apesar de haver quem a aponte como sua amante.
A história de Inès, infelizmente é igual à de tantas mulheres muçulmanas (e outras), foi trabalhar aos 10 anos como empregada para uma família rica, onde pode ir à escola, aprendeu a cozinhar e limpar a casa, até ao dia (com 15 anos) em que é violada pelo filho do patrão,ficando grávida de Karim. É ameaçada para não contar nada a ninguém, contudo, ela apresenta queixa e, é despedida, sendo que na polícia, é tratada como culpada. A sua família é avisada do que aconteceu, contudo é renegada, meses depois nasce o seu filho e, com o dinheiro que lhe resta, decide regressar a casa, pensado que ao verem a criança, voltassem atrás na sua decisão, mas isso não acontece. Acaba por pedir abrigo ao seu irmão, que a acolhe, no entanto, um dia em que está sozinha em casa, aparece lá um grupo constituído pelo seu tio, pai e irmãos, dizendo que "só o sangue limparia o que ela tinha feito, que se tivesse comportado com decência, nada daquilo tinha acontecido", fazendo-lhe um corte com uma navalha, do canto da boca até à orelha, de forma a que quem olhe para ela saiba que é uma "puta". Vai embora, e dorme na rua durante uns tempos até ser acolhida num centro de dia (dirigido por suíços, pois, no seu país, pessoas assim não têm direitos, não são reconhecidas), onde arranja emprego numa fábrica de confeções. A fábrica era gerida por um casal, até que a mulher morre e Amal Bencharki, decide casar com Inès e dar assim o nome ao seu filho, pois tem a família longe e sentia-se sozinho. A família começa a suspeitar e, ela acaba por contar a verdade, sendo o fim de tudo, Amal, deu-lhe documentos e dinheiro, de forma a que ela consiga sair da cidade. Sai da cidade e, ganha dinheiro a fazer roupas, esforça-se por dar tudo o que pode a Karim. Quando, Karim  tem cerca de 16 anos, vai durante 3 meses trabalhar para Espanha na colheita de morangos, de forma a conseguir juntar dinheiro para que o filho possa ir para a universidade, fazendo o mesmo no ano seguinte. Contudo, no ano seguinte, quando chega, descobre que na sua ausência o filho tinha violado uma rapariga (Shada), que segunda a sua teoria era uma "puta" (isto porque usava calças de gangas, saltos). Shada tinha uma filha, Du'a, Shada, tal como Inès, denuncia o caso à polícia, acabando por ser ela a investigada e desalojada do local em que vivia, pois, estava a viver ilegalmente numa casa que era do estado. Desesperada e sem ter para onde ir, deitara uma lata de gasolina por si abaixo e imolara-se. Inès decide criar Du'a visto que o seu filho é em parte culpado pelo que aconteceu com a sua mãe. Ao invés do que fez com o filho, decide contar a Du'a a verdade. A partir daí sucedem-se mais casos.

Karim é filho de Inès, sempre teve tudo o que quis, tem vergonha da sua história, culpando a mãe pelo que lhe aconteceu. É uma pessoa influente e interesseira, levando os outros a agir como ele quer que ajam, mas de forma a que pensem que o estão a fazer porque querem. Usa o Islão como desculpa para os seus atos e como forma de aproximação de pessoas que lhe interessam. Rouba algo às vítimas/futuras vítimas, sendo assim que Inès descobre os seus atos. Não gosta de ter Inès por perto, pois, sente que ela lhe interfere nos planos.



0 comentários: